Futuro Imperfeito

Ficção Científica, Fantasia e Horror


Glasgow 2024 – Parte 1

Num salão lotado, eu saboreio tranquilamente um pint de Guinness. Um escocês me aborda. Parece saído de um livro: ruivo, de barba e vestindo um kilt. Ele pergunta se estou me divertindo em Glasgow. Claro que sim. Ele pergunta de onde vim, e quando falo do Brasil ele diz que o filho vai passar um ano na América do Sul ano que vem. Trocamos figurinhas por uns cinco minutos, e cada um vai pro seu lado. É simples assim, é como se nos conhecêssemos há muito tempo, somos parte de uma mesma comunidade.

Muitos definem a Ficção Científica como um diálogo, uma conversação, uma troca de ideias. Também é uma comunidade. Então nada melhor do que reunir, num lugar só, fãs, leitores, escritores para celebrar esse diálogo. A Convenção Mundial é uma celebração dessa comunidade da FC. Este ano, Glasgow reuniu 7.200 pessoas de todo mundo. Foi o terceiro maior público presencial numa Worldcon, depois de Chengdu (18.900 ano passado) e Los Angeles (8.300 em 1984). 

O centro de Convenções de Glasgow fica às margens do rio Clyde, onde antigamente havia grandes estaleiros, e hoje é cercado por hotéis. No meu vejo também Adrian Tchaikovsky e Aliette de Bodard (mas eu os deixo tomar o café da manhã em paz; sete da manhã é muito cedo pra importunar os outros).

Foi a minha segunda WorldCon (a primeira foi em Chicago em 2022). Mal pego o crachá e já começo a colecionar as tradicionais fitinhas que você vai colando umas nas outras: são promoções de outras convenções, fã-clubes, editoras, autores etc.

Cheguei com a mala vazia, porque já sabia que ia voltar carregado de livros. Em Chicago, foram 20… desta vez, foram 42 livros e revistas. Faz tempo que me rendi aos livros eletrônicos, mas um dos grandes baratos da WorldCon é conhecer e conversar com autores nas sessões de autógrafos. Então recompro alguns que já tinha só pela oportunidade de tê-los autografados.  Sem falar em descobrir editoras independentes e autores novos.

O mestre Robert Silverberg

Então peguei autógrafos de grandes mestres como Robert SIlverberg (Dying Inside): aos 89 anos, recordista em participações na convenção mundial. Simplesmente agradeço por tantas histórias incríveis ao longo dos anos, especialmente Nightwings, o primeiro dele que li e que me marcou. Ele agradece de volta, e diz que é sempre bom ouvir isso. Com Alastair Reynolds, comento como Revelation Space me impressionou quando li no início dos anos 2000. De Aliette de Bodard, já tinha vários autografados da editora Subterranean Press, mas aproveito o novo, Navigational Entanglements, para conhecê-la pessoalmente.

Dos convidados de honra, o escocês Ken MacLeod (Beyond the Light Horizon e a coletânea, A Jura for Julia, também assinado pelo ilustrador e convidado de honra Chris ‘Fangorn’ Baker). E também Nnedi Okorafor (Who Fears Death, em breve série na HBO/Max). Brinco com Adrian Tchaikovsky que é difícil ficar em dia com ele (só em 2024 são três romances). Congratulo Ai Jiang (AI am AI, Linghun) pelo casamento recente. Amal El-Mohtar me diz que adoraria vir ao Brasil, e elogia a belíssima edição em português de É Assim que se perde a guerra do tempo (Suma). Dois escritores mencionam o amigo Fábio Fernandes: o italiano Francesco Verso (a coletânea solarpunk Ecolution) e o britânico Ian McDonald (Desolation Road).

Emily Tesh

Eu digo a Emily Tesh que Some Desperate Glory – uma Space Opera antifascista – bate forte, e ela diz que foi de propósito. Eu digo que vim do Brasil, e que recentemente passamos por um governo, digamos, preocupante, e ela responde: “Eu sei. Pelo menos vocês conseguiram eleger o presidente Lula de novo. Foi por isso que escrevi esse livro, por causa de coisas assim que estão acontecendo em vários países, a gente não pode ficar calado.” (Obs.: Ficção Científica É política. Não é só entretenimento juvenil. É uma maneira de tentar entender as transformações do mundo, e isso passa inevitavelmente pela política.)

Emma Newman

O melhor encontro é com Emma Newman, autora da série Planetfall. Ela reuniu os contribuintes do Patreon dela pra tomar chá e bater papo. Durante uma hora, eu e mais cinco leitores conversamos com ela sobre Um Som de Trovão de Ray Bradbury, A Curva do Sonho de Ursula Le Guin, possíveis novos livros da série Planetfall, e o livro novo, The Vengeance, que ela definiu como “Os Três Mosqueteiros com vampiros e lobisomens.” Um encontro que valeu a viagem inteira.

A seguir: festas e prêmios




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