Festas e Prêmios
Durante o dia, a Convenção Mundial de Ficção Científica é um corre-corre entre as várias salas onde acontecem as palestras e debates. Podem ser assuntos sérios como a recente onda de censura a livros, principalmente nos Estados Unidos. Ou uma divertida conversa sobre o fascínio da FC com todo tipo de insetos e aracnídeos. Uma das minhas poucas queixas quanto à organização é terem colocado sessões com palestrantes muito interessantes em salas pequenas. Fiquei de fora, por exemplo, de um painel sobre política na FC com Arkady Martine numa das menores salas do evento. Felizmente, a programação era tão extensa que sempre havia uma alternativa interessante.

Eventos ligados a RPGs encheram até as salas maiores. Algumas apresentações foram pura diversão, como Duna: o Musical, um resumo hilário do épico de Frank Herbert; e um show de fantoches de meia satirizando os filmes de super-heróis.

A Convenção é uma grande festa. John Scalzi dá uma de DJ na Festa Dançante no Fim do Universo. Tem música tradicional escocesa (Ceilidh, pronuncia-se ‘kêili’), com direito a aula de dança. E as várias festinhas no salão dos expositores, a maioria delas de delegações de outras convenções: como os americanos de Seattle (ano que vem), e Los Angeles (2026), os canadenses da candidatura de Montreal para 2027, os irlandeses candidatos a sediar a Worldcon de 2029, e os não menos animados irlandeses do norte que vão sediar a convenção britânica de 2025. Cada um com suas bebidas: muito whisky irlandês; os japoneses servem sakê e também shochu, e os simpáticos fãs da série Honor Harrington, a Marinha Real Manticorana que têm de tudo um pouco, de cervejas artesanais a hidromel.

Tem festa, mas também tem treta. O americano responsável pela censura a candidatos ao Prêmio Hugo do ano passado está barrado, mas aparece mesmo assim. A convenção de 2023 foi em Chengdu, na China, e havia medo de censura. Mas o veto a vários candidatos veio do organizador americano da premiação (cujo nome não pretendo mencionar), talvez por não querer desagradar os anfitriões… Foi um escândalo, e ele foi expulso da organização. Os organizadores de Glasgow tinham fotos dele caso ele tentasse entrar com outro nome. Pois ele estava num dos hotéis em volta, pra participar de um evento de promoção da ficção científica da China. Mas acabou confrontado pela escritora T. Kingfisher (pseudônimo de Ursula Vernon), que descascou e rogou uma praga, desejando que ele pise descalço em peças de Lego pro resto da vida! T. Kingfisher ganhou o Hugo ano passado, mas ficou indignada com a censura.
Este ano os organizadores escoceses foram super transparentes, a revelaram ter anulado 377 votos suspeitos: inscrições de eleitores em série com endereços de e-mail com nomes parecidos (mudando uma letra ou um número), e inscrições de eleitores pagas em grupo pela mesma pessoa). Eles disseram que o indicado que seria favorecido não teve envolvimento, e que não foi um dos ganhadores.

Mas depois dessa perda de respeitabilidade do ano passado, a cerimônia do Hugo transcorreu num clima de revalorização do prêmio. O Hugo é uma celebração da comunidade da Ficção Científica e Fantasia, e foi esse clima de comemoração que reinou na noite, como John Scalzi fez questão de ressaltar no discurso que lembrou a história do prêmio.
A lista completa de ganhadores está aqui. Destaco a revista Strange Horizons, que depois de 11 anos batendo na trave finalmente ganhou, merecidamente. Naomi Kritzer levou dois prêmios, por conto e noveleta. A melhor novela foi para T. Kingfisher, que nos brindou com mais um discurso bizarro, dessa vez com curiosidades sobre os pepinos do mar…

O melhor romance foi para Emily Tesh. Some Desperate Glory é uma Space Opera antifascista. Começa com um pequeno grupo de humanos que luta como guerrilha contra uma espécie alienígena que destruiu a Terra. Mas aos poucos a autora desconstrói o discurso fascista desse grupo, e como o grupo faz uma lavagem cerebral nos jovens para se manter no poder em nome de uma vingança vazia. Tesh fez um discurso impactante, que traduzo aqui na íntegra.
“Essa é a minha esperança para este livro… Eu espero que este livro desapareça. Eu espero que ele se junte à honorável lista de ganhadores do Hugo que falavam a uma comunidade específica numa época específica e não para toda a história. E eu torço para este sumiço porque ninguém escreve uma distopia de ficção científica querendo acertar a previsão. E Some Desperate Glory é um livro que foi inspirado no que está acontecendo de pior no mundo hoje. É reconfortante, especialmente pra quem gosta de livros, como é o caso de muitos de nós, acreditar que livros podem mudar o mundo. Tenho que dizer que com a possível exceção de Karl Marx, acho que poucos escritores podem realmente dizer que mudaram a história. O que um livro pode fazer às vezes é mudar o coração, às vezes como conforto, às vezes como um estímulo. Tanto confortos quanto estímulos mexem com as pessoas, e são as pessoas que mudam o mundo. E eu posso imaginar poucos lugares, poucas comunidades, mais cheias de visão e energia e esperança do que esta comunidade aqui em Glasgow esta noite.

Escrevi Some Desperate Glory imaginando um final ruim. Fico feliz de ter jogos como uma categoria permanente. Adoro um video game, adoro um final ruim. Imaginei o que de pior a humanidade pudesse se tornar, com tudo de pior da nossa espécie: crueldade, brutalidade, ódio do outro e o apego ao poder. Esta noite, quero que se juntem a mim pra imaginar o contrário, o melhor que temos, que é algo que a Ficção Científica pode fazer e que sempre fez. E através e por causa desse poder da imaginação, peço que ajam como puderem e como for melhor para vocês, para ajudar as vítimas da violência e da guerra ao redor do mundo, em Gaza, na Ucrânia, no Sudão e em vários outros lugares. Apoiem as vítimas da crueldade e da intolerância perto de casa, incluindo aqui nessas ilhas onde a solidariedade é tão necessária agora, principalmente para as vítimas dos recentes tumultos racistas, e para auqeles que são alvo da transfobia de parte da mídia britânica.
Eu escrevi sobre o final ruim da humanidade, e peço a vocês de coração que mostrem que eu estava errada.
Obrigado.”
A festa não acabou. Ainda vou assistir a muitos painéis gravados que não consegui ver ao vivo. Os organizadores marcaram uma confraternização online para novembro. E então é começar a preparação para Seattle.


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