Futuro Imperfeito

Ficção Científica, Fantasia e Horror


O Dia da Ficção Científica Brasileira

Os americanos comemoram o Dia da Ficção Científica no aniversário de Isaac Asimov, 2 de janeiro. Aqui no Brasil, temos o nosso Dia da Ficção Científica Brasileira, no aniversário de um dos grandes nomes do gênero nacional: Jerônymo Monteiro (1908 – 1970).

Jornalista, criador de radionovelas, editor e tradutor de quadrinhos da Disney, a partir da década de 1940 deixou a sua marca na FC nacional com romances como Três Meses no Século XXI (1947). Fundou em 1964 o primeiro grupo dedicado ao gênero no Brasil, a Sociedade Brasileira de Ficção Científica, escreveu uma coluna dedicada ao gênero e à ciência no jornal A Tribuna, de Santos, e pouco antes da sua morte começou a publicar o Magazine de Ficção Científica.

Herdei da biblioteca do meu avô alguns livros dele e de outros autores da geração GRD (editora pioneira no Brasil), e que merecem ser reexaminados em tempo de catástrofes climáticas.

Fuga Para Parte Alguma (1961) é ambientado num futuro muito distante, em que uma praga de formigas mutantes e vorazes ameaça a humanidade. Não são as formigas gigantes e atômicas do filme O Mundo em Perigo (Them, 1954). Monteiro não se preocupa muito em explicar o que teria causado a mutação. Em vez disso, o romance discute a pequenez da humanidade diante da força da natureza, e a incapacidade dos humanos de se organizarem para enfrentar o problema – ao contrário das formigas, super organizadas. Nem as armas mais modernas desse futuro, uma espécie de super laser, são capazes de conter o avanço avassalador das formigas. É um romance pessimista, como o título indica, e ao mesmo tempo mostra que a Terra – e a vida nela – vai sobreviver bem após a nossa passagem.

Mais bem-humorado, mas não menos sério, é Os Visitantes do Espaço (1963). Extraterrestres de Io, lua de Júpiter, chegam à Terra de modo pacífico, mas com objetivos misteriosos. Personagens chamados apenas de Capitalista Sonhador, Homem Imaginativo, Repórter Aventureiro, e o belicoso Tenente investigam qual seria o real interesse dos alienígenas. Mary Elizabeth Ginway, em Ficção Científica Brasileira: Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro (Devir, 2005) compara os alienígenas aos estrangeiros que ao longo da nossa história se interessaram apenas em explorar e retirar nossas riquezas nacionais – e o alvo principal dos extraterrestres é a floresta amazônica. A razão prevalece contra os impulsos bélicos e o egoísmo, e a humanidade, com um certo sacrifício, acaba compartilhando seus recursos para ajudar a salvar os Ionas. 

Na época, não se falava tanto ainda em aquecimento do planeta, mas hoje a história de Monteiro ganha um significado diferente. Aqui, um spoiler necessário: os alienígenas vieram buscar vapor d’água. O resultado é a redução do nível dos mares, rios e lagos – o contrário do que vivemos agora, e o aquecimento do planeta. Mas isso acaba compensado, vejam só, pelo derretimento das calotas polares!

Já que o nosso negócio é especular, como será que Jerônymo Monteiro lidaria com as mudanças climáticas de hoje?



One response to “O Dia da Ficção Científica Brasileira”

  1. Autores Brasileiros , ficção científica?

    Resenhas muito boas, fiquei interessado nas histórias.

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