Fincada no coração de Seattle, uma torre simboliza a esperança num futuro tecnológico: a Space Needle, construída para a Feira Mundial de 1962. No mesmo ano, estreava a série da Hanna-Barbera Os Jetsons. Mas os carros voadores não vieram, e parece mais que estamos a caminho de uma distopia. A nave-mãe da Convenção Mundial de Ficção Científica desembarcou na cidade com essa missão: “Construir o Futuro de Ontem para Todos”.

Chego dois dias antes pra conhecer a cidade e vou andar pela zona portuária de Seattle. Dá vontade de experimentar tudo no mercado de produtores locais. A bancada de frutos do mar é famosa, cheia de caranguejos e lagostas. Os vendedores fazem um certo número em que um joga o peixe um pro outro, geralmente um salmão enorme. Entre os tantos bares e restaurantes, começo pelo Elliott’s Oyster Bar, que tem uma carta de ostras. São dezenas de tipos diferentes, peço pro garçom montar um prato sortido então. Ando mais um pouco até o Ivar’s House of Clams, e provo o salmão. Mais tarde, ao ver as fotos, meu pai diz que esse era o melhor restaurante de frutos do mar já na época em que ele morou lá, há mais de 60 anos.
Sigo pro primeiro compromisso pré-convenção: um tour pelos subterrâneos da cidade. Seattle foi arrasada por um incêndio em 1889, e reconstruída sobre os escombros. Ainda é possível visitar parte do que restou embaixo da terra. A guia explica muito da história da cidade, desenvolvida por empresários picaretas e incompetentes, daqueles que constroem casas no que era um lamaçal e depois se espantam quando tudo começa a afundar.

Nas primeiras décadas, era uma cidade de lenhadores, marinheiros e… costureiras. Pelo menos era assim que as moças se descreviam para o censo e a receita. A pessoa mais rica de Seattle na época era a Madame Lou Graham, que ajudou a bancar o crescimento da cidade e fez a maior doação particular para escolas até a chegada de Bill Gates. A guia termina dizendo que as gorjetas são bem-vindas e vão ajudar pra que ela não precise costurar pra fora…

Termino o dia num encontro na cervejaria Old Stove com outros participantes da convenção. E porque o mundo é um ovo, conheço uma brasileira. Adriana Gomes é escritora e vive em San Francisco. Está na convenção com a filha, e tem um livro para o qual está procurando uma editora. Conversamos sobre quais obras primeiro nos atraíram para a Ficção Científica: Fundação pra mim, O Guia do Mochileiro das Galáxias para ela.
A Space Needle se destaca ainda hoje. Chego lá no não menos futurista monotrilho, que liga apenas dois pontos: a estação central de VLT, e o parque no centro da cidade, um percurso de uns dois minutos.

A Space Needle foi uma construção ousada para a época, o ponto central da Feira Mundial de 1962. Do alto tem-se uma bela vista da baía e das montanhas que cercam Seattle, com neve ainda no meio do verão.
Ainda no parque, outro evento pré-convenção é a visita ao MoPOP, o Museu da Cultura Pop, fundado pelo ex-sócio da Microsoft, Paul Allen. Logo na entrada, uma funcionária pergunta em português se sou brasileiro. Não sei como me reconheceu… talvez pela camisa do Flamengo.

A visita é guiada pelo ex-curador do museu, Brooks Peck, que mais tarde verei fantasiado nos corredores da convenção. Ele conta como foi atrás das peças originais para a exposição de Sci-Fi, que conta, entre outras coisas, com a máscara original de Greedo em Star Wars; o traje de Cornelius de O Planeta dos Macacos, e o hoverboard de Marty McFly em De Volta para o Futuro Parte II. O museu também tem o Hall da Fama da Ficção Científica, com uma máquina de escrever de Isaac Asimov, um rascunho à mão de Jack Vance, e o vestido de Rachel em Blade Runner.

Outras seções contam a história de lendas do Rock de Seattle, como Jimi Hendrix (com direito a um pedaço de guitarra quebrada) e Nirvana.
E por falar em Rock, a noite termina com todo o peso e a fúria do Nine Inch Nails, por feliz coincidência tocando na Cilmate Pledge Arena, a arena que dizem ser a mais sustentável do mundo. É usada pelos times de basquete feminino Seattle Storm e pelo de hóquei no gelo, Seattle Kraken (nome genial pra uma cidade portuária, e talvez um prenúncio para o Hugo Award?). E como tudo parece estar ligado, o NIN toca o tema deles na trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross pra Tron: Ares.

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