Futuro Imperfeito

Ficção Científica, Fantasia e Horror


Seattle Worldcon 2025, vol. 2: Contatos Imediatos

Chego na convenção quase batendo de frente (literalmente) com George R. R. Martin, autor de Canção de Gelo e Fogo (Game of Thrones). Ele também estava indo buscar o crachá. É hora de entrar e começar a colecionar fitinhas.

As fitas têm adesivos para ser coladas ao crachá. Tem fita pra dizer que eu votei no Hugo, fita em apoio às cidades candidatas a sede das próximas Worldcons, fitas de editoras, de institutos como o Bradbury Center, Heinlein Society, fã-clubes diversos, e da campanha Authors Against Book Bans. Termino a convenção com uns 80 cm de fitinhas penduradas, mas vi gente com muito mais.

Com a palavra, Robert Silverberg

A programação teve mais de mil eventos em cinco dias, entre painéis, sessões de autógrafos, bate-papos com autores, workshops, premiações, cosplay, atividades pra crianças e também festas. Consegui participar de mais de 40, indo de nove da manhã até meia-noite (e além…). Escolhas às vezes difíceis, em que deixei de assistir ao vivo a alguns eventos porque sabia que seriam gravados e poderia assistir mais tarde. Por exemplo, tive que escolher entre a Convidada de Honra Martha Wells e a lenda viva Robert Silverberg. Que soltou uma das pérolas da convenção, quando chegou a sua vez de se apresentar: “Eu sou Robert Silverberg, e se eu tiver que dizer mais do que isso, um de nós está na convenção errada.”

O primeiro painel a que assisto dá bem o tom dessa convenção: Um Projeto para Esperança, onde discutimos visões otimistas para o futuro numa época tão negativa.  

Bridget Landry

Engenheira da NASA e Convidada de Honra, deu umas quatro palestras, uma delas ao lado de dois colegas do Jet Propulsion Lab. Contou bastidores de várias missões a Marte, da missão a Europa e de projetos em andamento. Além de cientista ela é cosplayer, e apareceu pra cada um desses painéis com uma fantasia diferente. Uma figuraça.

Sara Light-Waller

Uma estudiosa da era das revistas Pulp, o painel dela sobre Space Opera como produto da Grande Depressão dos anos 1930 foi tão interessante, que quando terminou o horário eu e mais umas dez pessoas seguimos com ela pra uma mesa no saguão e continuamos por mais meia hora. 

O painel mais concorrido, com muita gente em pé, inclusive eu, foi “Um Gênero em Conversação com ele mesmo”, discutindo como certas obras provocam reações, reinterpretações, releituras. O gancho foi o conto indicado ao Hugo deste ano, “Why Don’t We Just Kill the Kid in the Omelas Hole”, de Isabel J. Kim, que estava no painel. Ao lado de pesos pesados como Neil Clarke, Becky Chambers, John Scalzi, e George R. R. Martin. O conto discute saídas drásticas para o dilema ético do clássico de Ursula K. Le Guin. Martin chegou atrasado (piada pronta…) e mostrou bom humor ao ouvir uma indireta sobre deadlines de Scalzi. 

Outras figuras marcantes nos painéis incluem nomes como Larry Niven, Eileen Gunn, o crítico Gary K. Wolfe, Nisi Shawl, Mary Robinette Kowal, Michael Swanwick, Nancy Kress, Seanan McGuire.

Mas o melhor painel foi “A História do Futuro”, que deixou clara a importância da Ficção Científica como mais do que um gênero literário, muito além do entretenimento, como uma maneira de enxergar e entender o mudo e as transformações da sociedade. Na mesa, escritores que são também estudiosos da FC e especialistas em outras áreas como história e ciência: Annalee Newitz, escritora e criadora do site io9.com; o acadêmico Doug Van Belle; Ed Finn, que publicou uma edição comentada de Frankenstein voltada para os aspectos científicos, sociais e éticos do texto, e Ada Palmer, indicada ao Hugo pela série Terra Ignota. Ela também é historiadora, e o livro que acaba de lançar é uma reavaliação do Renascimento. Palmer é uma grande defensora do papel da FC como uma lente para entender e até moldar o futuro, ajudando a pensar o futuro que queremos – e prevenir aquele que queremos evitar. 

Ada Palmer merece um capítulo à parte. Ela participou de uns 15 eventos nos cinco dias, falando sempre com clareza e insights precisos sobre assuntos como o urbanismo do futuro, a evolução do casamento, distopias, e a censura nas histórias em quadrinhos (a perseguição aos quadrinhos de horror nos EUA nos anos 1950). O próximo trabalho dela é justamente uma história da censura através dos tempos, e tem uma amostra neste excelente artigo. Em mais de um painel, ela alerta sobre o perigo das Fake News e o uso político que é feito delas. Quando pego o autógrafo dela no livro sobre o Renascimento, eu comento que sou jornalista e enfrento essa luta diariamente.

A convenção teve um festival de curta-metragens com muita coisa interessante. Infelizmente só consegui assistir a uma sessão, mas nela estava o curta brasileiro Catty Bete, de Mariel Haickel. E não é que acabou escolhido Melhor Filme de Horror da mostra?

2025 é o aniversário de 50 anos de Rocky Horror Picture Show, o mais cult dos filmes cult, e não podia faltar uma sessão comemorativa. Foi num Cinerama, uma tela gigantesca e curva, uma espécie de precursor do Imax. Pouca gente pra um cinema tão grandioso, infelizmente, mas é que concorria no horário com a festa do John Scalzi como DJ, que é sempre uma grande atração. Mas deu pra subir no palco e dançar o Time Warp, again.

As festas são uma tradição, e às vezes uma roubada. Por exemplo, os organizadores de Montreal 2027 tinham uma suíte pra promover a candidatura. Tinha comida e refrigerantes, ficou lotada, mal dava pra andar, mas não tinha cerveja… por isso muita gente (eu incluso), passava quinze minutos e ia pra festa dos tchecos, no mesmo andar – e mais lotada ainda. Eles pretendem lançar uma campanha pra 2031, e já têm o meu voto. Robôs animados, esses…

A seguir: De Livros e Sonhos



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