Entre um painel e outro (e às vezes no lugar de um deles), o lance é passar nos estandes das Fan Tables, Vendedores, e na mostra de Arte.
Nas Fan Tables você encontra mesas de diversas associações, fã-clubes, outras convenções, etc. Tem uma bancada de livros de graça, onde editoras levam livros pra promover, ou encalhes pra distribuir, e quem quer se desfazer de livros usados também deixa suas contribuições. As revistas Analog e Asimov’s estavam distribuindo os penúltimos números; peguei uma coletânea do Nathan Ballingrud, e alguém levou coleções inteiras de Analog e The Magazine of Fantasy & Science Fiction dos anos 1960-70. Peguei uma F&SF de 1972 com uma história (então inédita) de Frederik Pohl e Cyril M. Kornbluth.

Uma moça tenta me convencer a me inscrever no workshop Clarion West. Quando falo que sou do Brasil, ela me diz que já tiveram alunos brasileiros, e eu respondo que conheço pessoalmente um deles, Fábio Fernandes. (Tem pelo menos três outros, Clara Madrigano, Jana Bianchi e Rodrigo Assis Mesquita)
No estande da candidatura de Edmonton para 2030, um canadense diz que adoraria vir ao Rio de Janeiro, e pergunta quando vamos sediar uma Worldcon. Muito difícil, eu respondo. Não temos nem convenções regionais, quanto mais montar um evento internacional desse porte. Por uns 15 minutos, eu imagino a RioCon ou CarioCon no Pier Mauá, com a premiação do Hugo no Museu do Amanhã…
Voltando ao mundo real, passo no estande que comemora o centenário do escritor britânico Brian Aldiss, autor, entre tantas outras, da história original do I.A. de Steven Spielberg. Tem muitas fotos do escritório e de objetos dele. Quem me apresenta a mostra é simplesmente o neto de Aldiss, que logo me apresenta pra mãe. Eles ficam felizes quando digo que Trillion-year Spree, a história da FC escrita por Aldiss, é uma das minhas referências. Eles estão usando gravações da voz de Aldiss para alimentar uma inteligência artificial e produzir versões em áudio dos contos narrados pelo próprio. Se tem um uso apropriado pra IA, só pode ser esse…

Vários artistas e ilustradores expõem suas obras na área do Art Show, entre eles o convidado de honra Donato Giancola. É possível arrematar originais dos artistas em leilão. Eu me contento com duas gravuras: uma de Frank Kelly Freas, e outra de George Barr.
E tem estandes de RPGs, artesanato e jóias temáticas, e livros, muitos e muitos livros. Eu compro alguns de autores conhecidos que estavam lá autografando. Eu tinha que falar com a Caitlin Starling, por exemplo. O livro de estreia dela, The Luminous Dead, é um terror claustrofóbico em que uma astronauta explora cavernas sinistras onde uma expedição inteira se perdeu. Adorei e votei pra indicar ao Hugo em 2020 (não chegou lá…), e eu não podia deixar de parabenizá-la e dizer que daria um ótimo filme. Aproveito pra pegar o autógrafo também no livro novo dela, The Starving Saints, um horror medieval num castelo sob ataque, cujos moradores entram numa espiral de loucura e… Leitura leve, relaxante…

A editora Grim Oak Press publicou uma antologia especialmente pra Worldcon, Grimoire, que virou gincana: quase todos os autores estão em Seattle, e o negócio é tentar os autógrafos do maior número possível. Eu consigo 7/20 : Martha Wells, Fran Wilde, Brenda Cooper, Scott Edelman, Lawrence Watt-Evans, Laura Anne Gilman e o editor Shawn Speakman.

Mas eu priorizo os autores independentes, aqueles que passam a convenção quase inteira ali sentados vendendo seus próprios livros. 12 dos 34 livros que eu acabo levando são de autores independentes. Como Weyodi Oldbear, uma escritora Comanche que em As Many Ships as Stars transformou em Space Opera o êxodo de seu povo diante da opressão do colonizador. J. Scott Coatsworth é tão entusiasmado que levo a trilogia inteira dele sobre uma generation ship que leva os remanescentes da raça humana.

A premiação do Hugo Award é sempre um dos pontos altos da Worldcon. É onde celebramos a excelência e o que de melhor (ou mais popular) se produziu no gênero no ano anterior. E foi um ano difícil de prever, teve categoria decidida por um único voto. Os meus escolhidos acabaram dicando em média em segundo ou terceiro lugar. Mas fico feliz por todos os ganhadores. Eu preferi Alien Clay, do Adrian Tchaikovsky, mas The Tainted Cup, de Robert Jackson Bennett, vinha sendo muito falado pelo worldbuilding, e é um vencedor digno, embora seja obviamente o primeiro de uma série, com muitas perguntas a serem respondidas nos próximos livros. Alien Clay pra mim é uma obra mais redonda, fechada.

Mas o sistema de votação do Hugo é feito pra se chegar a um consenso. Um dia eu explico o processo um tanto complicado, mas você não vota em um candidato só, classifica os indicados por ordem de preferência, e um sistema de eliminação em várias rodadas acaba produzindo um resultado que é quase uma média da votação. Claro, tinha que ser assim, pra nós nerds podermos ficar discutindo as estatísticas até o ano que vem.
Não foi tudo alegria: as apresentadoras Nisi Shawl e K. Tempest Bradford eram simpaticíssimas, mas cometeram muitas gafes: erraram muitas pronúncias e esqueceram de ler os nomes de alguns indicados. As desculpas demoraram a vir, e não foram muito satisfatórias. Os organizadores dizem que tinham feito um guia de pronúncias, mas parece que faltou preparação mesmo. Enfim, prometeram fazer um relatório com recomendações para passar pras próximas convenções.
O video da cerimônia está aqui.
Enfim, hora de fazer as malas, e começar a ler a pequena biblioteca que eu trouxe. E também de começar a pensar nos candidatos a melhores de 2025 pra Los Angeles.
Cumprimos a missão de imaginar um futuro melhor? Quero acreditar que sim. Resta agora o desafio de tornar essa ficção realidade.

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