Mary Shelley e a invenção da Ficção Científica

Quando Mary Shelley publicou “Frankenstein, ou o Prometeu Moderno” em 01 de Janeiro de 1818, sem querer, estava criando um gênero.
Era Terror? No prefácio, o marido dela, Percy Bysshe Shelley, jurava que não. Na verdade mal começava-se a usar os termos “Terror” e “Horror” pra definir um gênero. Uma enciclopédia da época falava em “Romances Horríveis”.

Era Gótico? Sim, tinha muito a ver com o estilo. Como na maioria dos romances góticos, o mal aparentemente sobrenatural acabava tendo uma explicação racional. Mas também era um monstro muito diferente.
Aventuras fantásticas já existiam. Mas quando alguém viajava pra Lua, geralmente era transportado de modo mágico, durante um sonho, por exemplo. Mary Shelley vivia no início de um século de avanços científicos e industriais impressionantes. Ela se interessava em ciência, e tinha assistido a demonstrações de galvanismo – a aplicação de estímulos elétricos para mover músculos. E foi isso que ela trouxe de novo: o uso da ciência, e não do sobrenatural, como ferramenta de transformação. E mais do que isso: examinou as consequências da arrogância e do uso irresponsável das novas descobertas.
Sir Walter Scott, o escritor escocês, numa resenha sobre Frankenstein na época do lançamento, tentava definir que gênero seria esse. Scott argumentava que os romances que giravam em torno do “maravilhoso” o faziam como mero exercício de imaginação, já que os protagonistas atravessavam a história incólumes, como meros espectadores. Já “Frankenstein” pertencia a um tipo mais refinado e filosófico de ficção, em que o importante não é o maravilhoso em si, mas os efeitos e as transformações que esse elemento provoca no protagonista.

O novo gênero demorou ainda muito a se cristalizar. Vieram Edgar Allan Poe, Júlio Verne. No fim do século XIX, H. G. Wells começou a escrever “Romances Científicos.” Embora haja um registro do uso da expressão “Ficção Científica” num texto de 1851, foi só depois de 1926, quando o editor Hugo Gernsback começou a publicar histórias que classificava inicialmente de “Scientifiction”, que o gênero ganhou nome de vez.
E mais de 200 anos depois, “Frankenstein” continua definindo o gênero. O livro faz as perguntas básicas da Ficção Científica: o que nos torna humanos? Como devemos usar as descobertas revolucionárias da ciência? São perguntas que tentamos responder até hoje. Questões que continuamos a discutir em livros e filmes como “Blade Runner” e na recente série “Alien: Earth”. Estão na ciência que foge ao controle em cada Parque dos Dinossauros, em cada Godzilla criado pela energia atômica. No Darth Vader que se ergue da mesa de cirurgia. Em cada experiência que cria um super-herói – ou supervilão…
Ah, por falar nisso, Mary Shelley criou o Cientista Louco. Só que também não sabia. A palavra “cientista” só foi cunhada uns 15 anos depois da publicação de Frankenstein. Um filósofo e historiador criou a palavra à semelhança de “artista” (alguém que pratica arte). Até então, usava-se a expressão originada na Grécia Antiga, “Filósofo da Natureza”, ou “Filósofo Natural”. Ainda bem. Filósofo da Natureza Louco não dá, né?

A Ficção Científica é um diálogo, com novos autores sempre respondendo a obras que vieram antes. Com “Frankenstein”, isso aconteceu sobretudo na transposição para diferentes mídias. “Frankenstein” foi adaptado para o teatro poucos anos depois da primeira edição, ainda atribuída a um autor anônimo. E foi num palco inglês que Victor bradou pela primeira vez o agora clássico “It’s alive!” Foi tema de um filme curto da produtora de Thomas Edison nos primórdios do cinema em 1910. Agora ganha uma nova adaptação grandiosa de Guillermo Del Toro (resenha aqui em breve).

E o cinema veio ampliando e transformando Frankenstein. Mary Shelley deixou bastante vago o processo e o momento da criação do monstro, que é bem curto no livro. Coube ao cinema descrever os detalhes mórbidos da criação a partir de partes de cadáveres, e transformar a cena em que a criatura ganha vida num espetáculo de som e fúria.
Além de tudo, “Frankenstein” é daquelas obras que precisam ser revisitadas, porque a cada nova leitura você descobre camadas ocultas de significação. Não é à toa que, mais de 200 anos depois, continuam a ser publicadas edições comentadas e estudos acadêmicos. É uma obra curta mas complexa, que não se esgota numa única leitura.
(Uma versão desse artigo foi publicada originalmente no blog cheirodelivro.com)

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