Frankenstein é uma das obras da literatura mais adaptadas para o cinema na história, junto com Dracula. Cada versão traz um olhar novo, e assim como acontece com o vampiro, é impossível falar numa versão definitiva. A nova encarnação reanimada por Guillermo Del Toro é grandiosa, mas não será a última – já tem uma outra, The Bride!, prevista para o ano que vem. Mas sem dúvida, a versão do diretor mexicano é uma das mais grandiosas e apaixonadas de todas.
Del Toro diz que esse foi um projeto da vida toda, desde que se encantou com a versão de 1931 com Boris Karloff. Ele diz que na volta da igreja aos domingos, ele e as outras crianças passavam o dia vendo velhos filmes americanos. Para ele, aos 7 anos de idade, foi uma revelação, uma experiência religiosa.

A devoção está em cada fotograma do filme. Uma fotografia luminosa, cenários luxuosos e ricos, figurinos deslumbrantes, uma concepção visual planejada em detalhes. Del Toro é um mestre com as cores, e cada personagem tem uma paleta própria. O diretor disse em entrevistas que tentou traduzir para a tela o Romantismo dos Shelley (tanto Mary quanto o marido, Percy) e de Byron. Tudo é grandiloquente, e nesse aspecto o filme dele se sobressai da adaptação correta mas um tanto fria de Kenneth Branagh (1994). Uma comparação melhor seria com o Drácula de Coppola (1992), que aliás revi no cinema no dia seguinte ao novo Frankenstein (e que também toma grandes liberdades com a obra original). Os dois fazem um bom par.

Del Toro toma algumas liberdades e acrescenta elementos à trama, mas sem perder de vista os temas centrais: a vaidade e irresponsabilidade do cientista, e a incapacidade de Victor como pai da criatura. O diretor disse que encontrou em Frankenstein uma maneira de lidar com o relacionamento dele mesmo com o pai, e também com o filho. Para isso coloca Victor como vítima de um pai cruel e exigente (Charles Dance, com toda sua fúria), e que por sua vez reproduz a intolerância com seu “filho”, a Criatura. Essa temática está no livro de Mary Shelley, um reflexo talvez de vários relacionamentos paternos complicados ao redor dela. Com o próprio pai, que a deserdou após a fuga dela com Percy. Este, por sua vez, também tinha um relacionamento complicado com o pai. Victor não é só um cientista irresponsável com as consequências das suas descobertas, é também um pai insensível.

O diretor estrutura a narrativa como uma história dentro de uma história dentro de uma história, e vai revelando as camadas com precisão.
Se o tom é grandioso e emocional, como uma ópera, também há espaços para sutilezas. Oscar Isaac contrabalança a obsessão e o egoísmo com um grande carisma, Mia Goth é um raio de luz e sanidade nas trevas, e sua Elizabeth tem personalidade e agência, algo que falta inclusive no livro original. Christoph Waltz tem no olhar a sutileza de um personagem cuja empatia parece sempre esconder um segredo. E acima de tudo, Jacob Elordi dá à Criatura as doses certas de força, raiva, e ingenuidade de alguém que não consegue compreender por quê é tão rejeitado e escorraçado.

Puristas podem se queixar do final do filme, mas esta, repito, é a visão de Del Toro. A versão de 1931 de James Whale é icônica, mas por muito tempo distorceu nossa percepção da Criatura de Mary Shelley. Del Toro se aproxima mais do original, e trata a Criatura – e a obra – com todo o carinho que merecem.


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