Futuro Imperfeito

Ficção Científica, Fantasia e Horror


James Cameron e as influências de Avatar

Um cientista paraplégico tem sua mente transferida para um corpo adaptado às condições de um planeta inóspito: maior massa muscular, agilidade e uma pele azul. Depois de experimentar a recuperação dos movimentos, o cientista decide ficar definitivamente naquele corpo e viver no planeta. Não, não estou falando de Avatar.

Um planeta coberto de florestas tem uma espécie nativa vivendo em harmonia com a natureza. Uma expedição da Terra, comandada por um militar especialmente brutal, invade o planeta em busca de recursos naturais, escraviza e massacra a população local. Até que os nativos se revoltam e conseguem expulsar os invasores terráqueos. Não, não estou falando de Avatar.

Um planeta onde os habitantes desenvolvem uma ligação telepática única com répteis voadores, que usam para defender o planeta de uma ameaça externa. Não, não estou falando de Avatar

A primeira história é “Call Me Joe”, uma noveleta de Poul Anderson publicada na revista Astounding Science Fiction em 1957. Anderson faleceu aos 74 anos em 2001, e não chegou a ver Avatar (2009). Pelo menos não o filme de James Cameron, porque o mesmo Poul Anderson tem um outro livro chamado… The Avatar (1978). Amigos chegaram a sugerir à viúva (e frequente co-autora) Karen Anderson (falecida em 2018) que processasse o cineasta, mas ela não quis. 

A segunda história é Floresta é o Nome do Mundo, de Ursula K. Le Guin (Morro Branco, tradução de Regina Candiani). Foi publicada em 1972 na antologia Again, Dangerous Visions, editada por Harlan Ellison (guardem esse nome), e ganhou o Prêmio Hugo em 1973. Foi escrita por Le Guin durante a guerra do Vietnã. 

A terceira é a premissa da série Dragonriders of Pern, de Anne McCaffrey. As duas primeiras novelas, “Weyr Search” e “Dragonrider” (1968), fizeram da autora a primeira mulher a ganhar respectivamente o Hugo e o Nebula, e depois foram reunidas no romance Dragonflight.

Difícil imaginar que alguém como Cameron, que se diz um leitor voraz de FC, não conhecesse pelo menos uma dessas histórias. Harlan Ellison, vivo fosse, certamente teria alguma coisa a dizer sobre isso. Ele processou Cameron porque viu semelhanças entre O Exterminador do Futuro (1984) e um episódio escrito por ele para a série de tv A Quinta Dimensão (Outer Limits) em 1964. Em “Soldier”, dois soldados de uma guerra do futuro se perseguem através do tempo. O processo não chegou a ir a julgamento: os dois fizeram um acordo extrajudicial por um valor não divulgado, e o nome de Ellison foi acrescentado aos créditos do filme de Cameron como “Em reconhecimento à obra de Harlan Ellison.” O escritor era ferrenho defensor dos direitos autorais. Cameron chamou ele de parasita…

Nada disso é muito novo, mas acho inevitável comentar quando sai um filme novo da franquia bilionária.

Em Hollywood é muito comum cineastas de sucesso serem processados por plágio. A maioria desses processos é muito frágil e oportunista mesmo. 

Em entrevistas, Cameron prefere falar das influências históricas reais sobre Avatar, e cita diversos episódios de colonialismo ao longo da história da humanidade. 

Mas o diretor que produziu um documentário sobre a história da FC bem que poderia reconhecer a dívida com os precursores.



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