Aberta a votação, aqui vão breves comentários sobre alguns livros que já li pra escolher os meus indicados ao prêmio Hugo. Ainda tenho vários na fila até o deadline de 28/03, mas já acho que entre esses sete aqui já tenho os meus cinco indicados.
Death of the Author, de Nnedi Okorafor
Uma reflexão sobre o poder das histórias e a importância de se controlar a própria narrativa.
A protagonista, Zelu, é americana filha de nigerianos, assim como Nnedi Okorafor. Mas, diferentemente da autora, a personagem é paraplégica, vive com os pais, sempre cercada pelas irmãs e irmãos. Com um romance literário rejeitado por todas as editoras, ela resolve escrever um livro de ficção científica, que acaba se tornando um best-seller, logo adaptado para o cinema, e Zelu se transforma em celebridade mundial. Mas isso vira um problema para a família superprotetora. Ainda mais quando Zelu aceita a oferta de um cientista para testar próteses inteligentes e andar com as próprias pernas. Okorafor intercala a história de Zelu com trechos do livro fictício, Rusted Robots (“Robôs Enferrujados”), sobre o conflito entre facções de robôs que sobrevivem na Terra após a extinção da espécie humana.
É um conflito entre as expectativas da família e da sociedade de um lado, e os desejos individuais do outro; entre um suposto dever e a vontade de seguir seu próprio caminho. Sem dar muito spoiler, realidade e ficção acabam se misturando, numa defesa do direito de se contar a própria história.
The Everlasting, de Alix E. Harrow
Outra reflexão sobre o poder das histórias e a importância de se controlar a própria narrativa. E também sobre como o fascismo manipula e reescreve os mitos e a história para construir uma narrativa que o sustente.
Um historiador é enviado ao passado para testemunhar e escrever a história de uma heroína medieval, a mando de uma líder que deseja assumir poderes absolutos.
O país é fictício, mas claramente baseado na Inglaterra, e a lenda em questão é a do Rei Arthur, essencial na cultura britânica. Alix E. Harrow tem escrito fantasias interessantíssimas, duas delas lançadas em português (As Dez Mil Portas, indicado ao Hugo, e As Bruxas do Ontem e do Amanhã). Aqui, além de discutir as narrativas do fascismo, ela propõe formas de resistência e de mudança, de desobediência à devoção cega e quebra dos paradigmas.
Slow Gods, de Claire North
A autora britânica navega entre o vasto e o intimista numa Space Opera cheia de nuances e com fortes críticas muito atuais. Uma entidade (uma máquina / ser extraterrestre / um deus?) alerta a humanidade sobre uma supernova que está prestes a destruir dezenas de sistemas solares e desencadear uma crise humanitária de proporções galácticas. Onde e como realocar bilhões de pessoas? Que planetas vão aceitar todos esses refugiados? E pior: o regime hipercapitalista / fascista no centro da história primeiro nega e minimiza, e depois, para se salvar, passa a invadir sistemas vizinhos e exterminar as populações. É um futuro distante, mas os temas são todos muito atuais.
No meio desse conflito, temos um protagonista que nasceu em condições de escravidão. Pilotos como Mawukana usam a mente para romper barreiras dimensionais e conduzir as naves de um ponto ao outro no espaço, mas isso causa graves sequelas. Mawukana passa então de agente desse regime a membro da resistência, ao mesmo tempo em que se envolve com arqueólogos que correm para preservar a história que está prestes a ser destruída.
Shroud, de Adrian Tchaikovsky
Ano passado, o prolífico Adrian Tchaikovsky conseguiu a raríssima façanha de ter dois livros entre os finalistas ao Hugo. O pior (ou melhor) é que ele tem uma produção absurda, e com uma qualidade igualmente absurda. Um regime hipercapitalista (mais um) envia uma expedição para estudar um planeta cujos recursos naturais pretende explorar. Acontece um acidente, e duas tripulantes caem na superfície do planeta que é totalmente incompatível com a vida humana. Na luta pela sobrevivência, elas se deparam com uma estranha forma de vida. Tchaikovsky alterna os capítulos, contando a história também do ponto de vista alienígena. Os alienígenas funcionam como uma mente coletiva, não só inteligentes, mas com uma biotecnologia própria. O problema é que humanos e alienígenas têm aparelhos sensoriais e formas de comunicação divergentes, e não conseguem entender um ao outro como formas de vida inteligentes – um trata o outro como se fossem, digamos, insetos.
Querendo ou não, Tchaikovsky discute a busca pela comunicação com uma relevância especial na Terra de hoje, quando diferentes grupos de humanos aqui mesmo não conseguem se comunicar um com o outro.
When There Are Wolves Again, de E. J. Swift
Voltando à Terra e pensando no futuro próximo, E. J. Swift imagina os próximos 50 anos de mudanças climáticas através das vidas entrelaçadas de duas mulheres.
Uma é uma documentarista que começa se envolvendo com os lobos que vivem nas cidades abandonadas em torno da usina de Chernobyl. A outra é uma jovem ativista inspirada por Greta Thunberg. Enquanto a crise climática se agrava, as duas enfrentam negacionistas e intolerância de vários lados. Em vez de um painel mais global, com grandes acontecimentos, Swift foca nos detalhes, nos efeitos das mudanças na vida pessoal das protagonistas. E traz uma bem-vinda visão otimista de como mudanças em pequena escala, no âmbito da comunidade, podem fazer a diferença também em larga escala.
The Incandescent, de Emily Tesh
Katábasis, de R. F. Kuang (Intrínseca, tradução de Marina Vargas)
Este foi um ano especialmente forte em Dark Academia, o subgênero da fantasia sobre escolas de magia em que acontecem coisas sinistras. Poderia citar aqui mais uns três títulos (que ainda não li, mas pretendo chegar lá).
Em Katábasis, que já saiu em português, dois alunos brilhantes descem ao inferno para tentar trazer de volta um professor do qual dependem para se formar. Ao longo dessa viagem, vamos descobrindo que o relacionamento entre alunos e professor é muito mais complexo. R. F. Kuang discute política (e politicagem) acadêmica, relacionamentos inapropriados e dependência entre alunos e professores. E na descida ao inferno, traz um panorama de diferentes visões do submundo e do além tiradas de diversas tradições e obras literárias, da mitologia grega a Dante.
Emily Tesh tem uma visão também crítica do meio acadêmico, mas ao mesmo tempo tem um carinho pelos professores. Em vez de contar a história do ponto de vista dos alunos, a protagonista em The Incandescent é a professora de uma escola de magia. A aluna-prodígio é uma coadjuvante. O foco está na dedicação e nos sacrifícios pessoais de alguém que se dedica a formar novas gerações. Prova de que mesmo num subgênero como esse, sempre é possível ter um olhar diferente.

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