Futuro Imperfeito

Ficção Científica, Fantasia e Horror


Os Acordados, de Ursulla Mackenzie

Imagine que o tempo parou para todo mundo no planeta – menos você. Todos à sua volta estão paralisados – e não só as pessoas, mas também os animais. Esta é a situação com a qual se deparam os cinco personagens de Os Acordados, de Ursulla Mackenzie (Editora Rua do Sabão, 2025). Os cinco, reunidos aparentemente por acaso (será?) num hostel, partem de uma cidade sem nome no Sul do país em busca de respostas para a causa do fenômeno.

A cidade não tem nome, assim como os cinco personagens. Somos apresentados a eles como uma Moça Descontente, um Jornalista de Meia-Idade, uma Atriz Arrependida, um Rapaz de Óculos de Aro e uma Velha Organista. Os locais pelos quais eles passam também não. Mas isso não significa que sejam estereótipos ou arquétipos: cada um tem uma história de vida, que a autora vai revelando aos poucos.

Ursulla Mackenzie descreve em detalhes as considerações práticas da viagem das personagens nesse cenário: como fazem para se locomover, se alimentar, atravessar obstáculos no caminho. Mas essa não é uma narrativa focada em sobrevivência como em filmes americanos. Você certamente já deve ter visto algum daqueles em que os últimos sobreviventes da raça humana vagueiam por cidades vazias (ou quase – às vezes têm que fugir de algum tipo de zumbis ou mutantes). 

Os Acordados não é esse tipo de narrativa. Sim, há um elemento científico no mistério, mas o foco está no que une as personagens existencialmente. Os cinco examinam suas trajetórias, marcadas pela solidão e pelo isolamento. Eles “acordam” no sentido de que até então nunca tinham parado para pensar no sentido – ou na falta de sentido – de suas vidas.

Se fosse personagem do próprio livro, poderíamos chamar Ursulla Mackenzie de uma Autora com Profundo Senso de Observação. Ao longo do caminho ela faz, através das personagens, reflexões contundentes sobre a solidão, sobre o aparente vazio da existência, sobre o egoísmo e o narcisismo, até sobre a submissão da parte sul de um continente a uma potência do norte. Vejam a foto do livro com as fitas das passagens que marquei. Ursulla escreve com uma precisão e um cuidado delicados na escolha de cada palavra. 

Mas se tudo o que eu falei até aqui parece um cenário desolador, garanto que não é. Pelo contrário, como diz uma das personagens a uma certa altura, não é o vazio que nos une, é a esperança. Cada vida é relevante, cada momento e cada conexão têm valor. Cabe a nós decidir se estamos paralisados ou Acordados.



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