A Convenção Mundial de Ficção Científica, LACon V, em Anaheim, nos Estados Unidos, anunciou este domingo os ganhadores do Prêmio Hugo para os melhores de 2025.
Ursula Vernon (também conhecida pelo pseudônimo T. Kingfisher), que nos últimos anos nos agraciou com discursos hilários de agradecimento, este ano atacou de mestre de cerimônias.

Ela desfiou uma série de curiosidades bizarras e grotescas do mundo animal. Ainda bem, porque ajudou a preencher o tempo das três horas enquanto o staff resolvia os vários problemas técnicos da cerimônia.
Falando seriamente, Ursula Vernon lembrou a ausência na convenção de fãs e criadores de outros países, que preferiram não viajar para os Estados Unidos com medo do que poderia acontecer na chegada na imigração.
Num evento de criadores, os discursos de agradecimento costumam ser marcantes. O de Jason Sanford, lido pelo amigo Chris Barkley, destacou como a comunidade da FC representa a inclusão para alguém que passou a vida sendo excluído e tratado como esquisito por conta do diagnóstico de espectro autista.

Alguns destaques:
John Scalzi levou mais um por Melhor Série por A Guerra do Velho, que teve mais um volume publicado este ano.
Martha Wells idem, agora por Apresentação Dramática pelo episódio “All Systems Red” de Diários de um Robô Assassino.
Se teve um prêmio que eu achei questionável na noite foi o prêmio Astounding de Melhor Escritor Novo para Antonia Hodgson. Não pelo talento, que ela certamente tem, mas porque ela publica desde 2014 e já foi premiada por romances no gênero de crime. Mas agora que passou para a fantasia, pra efeitos do Astounding foi considerada como autora nova.

Outro prêmio que pode causar estranheza é o de Related Work (Obra Relacionada), geralmente para algum trabalho de não-ficção (críticas, história e análise do gênero, biografias de autores, etc). Foi para Inventing the Renaissance, de Ada Palmer. No vídeo de agradecimento, ela explica que usou ferramentas literárias da FC (inclusive com referências a RPGs), num livro que não é apenas uma história do Renascimento, mas acima de tudo sobre a maneira como a ideia do Renascimento foi criada posteriormente, como toda uma narrativa foi construída em torno do Renascimento para transformar uma era complicada e cheia de conflitos numa imagem de uma “Era de Ouro”. É um livro brilhante. Ada Palmer ainda defendeu o Hopepunk, uma FC voltada a imaginar um futuro melhor em vez da distopia que estamos vivendo.

Em algumas das categorias principais, era grande o equilíbrio, todos tinham chances. Inclusive as planilhas de votação revelaram como vários candidatos ficaram de fora da lista final por apenas um ou dois votos. Thomas Ha ficou com o de Melhor Conto por “In My Country”; H. H. Pak Melhor Noveleta por “Never Eaten Vegetables”.

A favoritíssima e simpaticíssima Amal El-Mohtar ganhou o de Novela pelo sensível, belíssimo “The River Has Roots”. E em seguida recebeu o grande prêmio da noite pela ganhadora, que não estava presente.
O Melhor Romance foi The Everlasting, de Alix E. Harrow. É uma reflexão sobre o poder das histórias e a importância de se controlar a própria narrativa. E também sobre como o fascismo manipula e reescreve os mitos e a história para construir uma narrativa que o sustente.
Um historiador é enviado ao passado para testemunhar e escrever a história de uma heroína medieval, a mando de uma líder que deseja assumir poderes absolutos e pra isso quer usar o mito como justificativa.
O país é fictício, mas claramente baseado na Inglaterra, e a lenda em questão é a do Rei Arthur, essencial na cultura britânica. Alix E. Harrow discute as narrativas do fascismo, propõe formas de resistência e de mudança, de desobediência à devoção cega e quebra dos paradigmas. E ainda tem uma história de amor envolvente.

Era um dos meus favoritos este ano. Até o último momento fiquei em dúvida, mas acabei colocando em segundo lugar na minha cédula. A votação é por ordem de preferência, e o complicado sistema de pontuação foi pensado para gerar um resultado que de certa forma seja próximo a um consenso. Fiquei feliz, é sem dúvida merecedora.
Quanto às minhas escolhas: das 21 categorias, os meus escolhidos ganharam em 7, e outros cinco ficaram em segundo lugar, nada mal. As estatísticas mostram a importância de cada voto. Este ano 2.492 pessoas participaram da votação final, mas nem todas votaram em todas as categorias. Se The Everlasting teve uma vantagem confortável de mais de 300 sobre o segundo colocado, Hugo, Girl! ganhou como podcast por apenas 9.
Já expliquei aqui como é fácil participar, e vale a pena. Qualquer dúvida podem me perguntar.
Agora é começar a pensar no do ano que vem, na 85a Worldcon, em Montreal, no Canadá.
A inscrição mínima, que dá direito ao voto, custa 70 dólares canadenses (R$261 em 31/08), e é um preço que compensa porque os eleitores recebem edições eletrônicas de quase todos os indicados (exceto games e filmes/séries).
A lista completa dos ganhadores, assim como as estatísticas e planilhas de votação estão em https://www.lacon.org/2026hugos/
E aqui a íntegra da cerimônia.
UM ADENDO
Nem tudo é festa. Antes da cerimônia, a World Science Fiction Society, que é o grupo de fãs que organiza a Worldcon e o Hugo, decidiu punir quatro indivíduos envolvidos no escândalo de censura nas indicações ao prêmio em 2023. Pra relembrar, naquele ano a convenção aconteceu em Chengdu, China. Havia o temor de censura, mas ela veio por iniciativa não do governo chinês, mas de um dos organizadores americanos. Quando as planilhas de votação foram finalmente publicadas, mais de três meses depois da premiação, havia inconsistências e vários autores e obras foram declarados inelegíveis sem que fosse apresentado motivo algum. Dave McCarty, um experiente organizador do Hugo americano encarregado de ajudar os organizadores chineses (que nunca haviam feito nada parecido), simplesmente tomou por conta própria a iniciativa de vetar obras que achava problemáticas para os chineses. Ele alegou que tinha a obrigação de respeitar as leis chinesas e que a intenção era preservar os organizadores locais de problemas com o governo de Beijing. Mas além da censura, por si só execrável, ele o fez de maneira totalmente arbitrária. Por exemplo, vetou Babel, de R. F. Kuang, que era um dos favoritos e vinha ganhando vários prêmios, sem ao menos ler o livro – só porque outra pessoa lhe disse que mencionava a China. Acontece que Babel retrata a China como vítima do imperialismo britânico, e o livro foi publicado normalmente no país, sem censura oficial.
Por essa e outras, depois de um inquérito, a WSFS decidiu banir McCarty pro resto da vida. Teve também suspensão para Ben Yalow, outro veterano organizador americano que co-presidiu a convenção, e dois dos organizadores chineses.
As punições refletem a mancha que ficou sobre a premiação de 2023. Foi uma convenção histórica para estreitar laços com o gigantesco e apaixonado público chinês de FC, que certamente merecia mais. Censura e arbitrariedade não têm lugar num prêmio democrático como o Hugo.

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