Futuro Imperfeito

Ficção Científica, Fantasia e Horror


Uma Longa Órbita, de Jana Bianchi

Jana Bianchi tem uma intensa atividade na literatura fantástica brasileira, como autora, tradutora e editora. Junto com Diogo Ramos, toca o Fantástico Guia, uma iniciativa para orientar e apoiar escritores. E faz parte de uma geração que desde 2020 vem rompendo a barreira da língua e publicando histórias em revistas de destaque como Uncanny e Clarkesworld.

Ela escreveu Uma Longa Órbita originalmente em inglês, com vistas ao mercado internacional, e depois traduziu pra português e ampliou o texto.

Tarsila, uma bióloga, chega ao assentamento científico do planeta Tau Ceti f com a tarefa de desvendar um mistério: de uma hora pra outra, seres microscópicos começaram a bloquear e corroer os dutos de captação de água, colocando em risco a existência da base humana. 

Tau Ceti f é habitável, mas tem uma gravidade muito maior que a da Terra. Para viver ali, humanos precisam passar por um longo processo de aclimatação, com terapia genética, que dura anos, e o assentamento não pode esperar. A solução para uma estadia temporária é usar um corpo artificial controlado remotamente pela cientista que permanece numa estação orbital. Os cientistas que vivem presencialmente na superfície já passaram pela adaptação. Tarsila se envolve emocionalmente com um deles, Nero, e esse romance passa a ser  o foco da narrativa, ao lado do mistério científico.

Jana conta que a ideia surgiu da vida real, do relacionamento à distância entre ela e Diogo em plena pandemia. Tarsila e Nero enfrentam o dilema de como lidar com o desejo físico enquanto a mente dela habita o corpo artificial. E além disso, têm que pensar no que podem esperar quando terminar a missão dela no planeta. A autora trata os momentos íntimos e sensuais de maneira adulta e com sensibilidade, o que dá credibilidade ao romance.

Uma Longa Órbita examina a solidão e o isolamento, principalmente aquele que a gente mesmo se impõe. Tarsila está isolada dos demais na estação orbital. Mesmo quando está na superfície, dentro do corpo artificial sente como se estivesse separada fisicamente, e evita se expor e se envolver com a equipe, uma defesa contra a despedida que sabe que virá em breve. À medida que fica conhecendo as histórias pessoais dos outros, vê que todos passam por algum tipo de isolamento, e que ali formam uma comunidade e uma rede de apoio. Tarsila precisa entender uma espécie alienígena, mas primeiro precisa fazer contato com a espécie humana.

Jana Bianchi

A cultura brasileira permeia o livro. Tarsila tem origem numa ancestralidade brasileira. O planeta é apelidado de “Toró” por causa das chuvas constantes. Os corpos artificiais são chamados de “gaiatos” (não vou dar spoiler, a Jana explica com humor). Nero volta e meia cita bordões de telenovelas clássicas. E tem até música, uma “bossa novíssima” com letra espacial – quero muito que Jana escreva a letra completa pra alguém musicar. 

Jana Bianchi cita como referência a americana Becky Chambers. Aqui não há vilões ou conspirações, os problemas são resolvidos com diálogo, empatia e bom senso, é uma visão positiva e humanista do futuro.

A editora Aleph já tem tradição na publicação de clássicos e obras importantes da Ficção Científica contemporânea. Uma Longa Órbita faz parte da primeira leva de obras de autores nacionais da editora, junto com Lady Sybylla, Alexey Dodsworth e Felipe Castilho. Um início promissor digno de aplausos.



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