Futuro Imperfeito

Ficção Científica, Fantasia e Horror


Sol de Limão, de Lady Sybylla

Frequentemente ouço de algumas pessoas a pergunta: por quê você lê Ficção Científica? Livros como Sol de Limão são pelo menos parte da resposta.

Leca, a protagonista, é uma ilustradora e trabalha para a editora do namorado, especializada em FC e fantasia. Referências ao gênero estão espalhadas pela história. Mas não se trata apenas de referências ou metalinguagem. Mais do que isso, Lady Sybylla usa a FC como ferramenta, como uma lente para enxergar o mundo, uma linguagem para interagir com ele.

A FC como forma de pensar o mundo permeia a narrativa. 

Logo no início, Leca recebe um diagnóstico de Alzheimer precoce. Nos primeiros capítulos, acompanhamos a gradual deterioração da memória dela de maneira sensível e detalhada. 

Mais à frente, ela será submetida a um tratamento experimental, que abre novas possibilidades mas também traz grandes riscos. E ela se pergunta: “Será que é assim que saímos da realidade para nos tornar ficção científica pura?”

A maneira como percebemos e sentimos essas transformações no cotidiano da protagonista lembra Flores para Algernon, de Daniel Keyes. A narrativa em primeira pessoa nos faz viver primeiramente o desespero da desconexão, e depois a euforia e o medo que surgem com a repentina revelação de uma nova visão de mundo.

Leca luta para preservar a memória: lembrar quem ela é, lembrar das pessoas que ama. Mas Sol de Limão não trata apenas da memória pessoal, mas também da coletiva. Estamos num Brasil de um futuro próximo, recém saído de uma ditadura militar evangélica. As marcas da repressão estão vivas nas vidas das personagens. Algumas até participaram do aparelho repressor, mesmo que a contragosto, e têm que viver com a memória disso. 

Sybylla discute como a violência tem consequências a longo prazo, e como é fundamental manter a memória para evitar uma repetição.

Sol de Limão faz parte do quarteto de lançamentos de autores nacionais da Editora Aleph. Ainda não terminei todos, mas se há um tema em comum é o questionamento da identidade e do que nos torna humanos – uma questão básica da FC desde Frankenstein, há mais de 200 anos.

A perda da memória coloca a identidade, e com isso a humanidade, de Leca em perigo. Mas a hiperconexão após o tratamento também faz Leca correr o risco de se distanciar da humanidade. A tecnologia que inova também traz riscos, é por isso que a FC é necessária para navegar nesse mundo em transformação.



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