No fim de Agosto, Los Angeles recebeu a 84a. Convenção Mundial de Ficção Científica. Esse pra mim é o evento nerd mais raiz, muito mais do que a San Diego Comic Con que virou um evento de mídia, uma grande plataforma de lançamentos para a indústria audiovisual americana.
Nos últimos anos, consegui viajar e participar de três Worldcons: Chicago (2022), Glasgow (2024) e Seattle (2025). Nelas, sempre que me apresentava como brasileiro, me perguntavam quando o Brasil iria sediar uma Worldcon. De volta ao país, falando das minhas experiências, ouvi o outro lado da pergunta: por que não tentamos?

Minha resposta pra primeira vem com um um sorriso amarelo: “Who knows? It ‘s complicated.” E pra segunda, depois de um momento de pânico e de respirar fundo: “Quem sabe? É complicado…”
Tenho até uma ideia pra nome, seria a Cariocon. Como possível local, o Pier Mauá, no Rio de Janeiro, com a cerimônia do Hugo no Museu do Amanhã.
Mas acho muito difícil, pelo menos nos próximos dez anos, e vou explicar por quê.
Primeiro, uma breve explicação de como funciona uma Worldcon.


São cinco dias de reuniões de fãs com escritores, dezenas de painéis debatendo assuntos sérios e outros nem tanto. Tem concurso de fantasias e a cerimônia de premiação do Hugo. Tem a famigerada Business Meeting, uma “reunião de condomínio” em que se discutem mudanças de regulamentos e se escolhem as próximas sedes. Tem convidados de honra e homenageados. Sessões de autógrafos, exposição de arte, stands de vendas. Mesas de RPG e jogos variados, e atividades pra crianças. A programação de Los Angeles listava 1.735 eventos, entre presenciais e virtuais. Tem que ter uma estrutura e logística enormes. Pra ter uma ideia, em plena L. A., os dois primeiros dias foram cheios de falhas técnicas na transmissão e gravação de painéis via Zoom, e muitos simplesmente foram perdidos – frustrando quem pagou como eu e pretendia assistir online ou posteriormente. E na capital da indústria audiovisual americana, houve falhas nos vídeos da cerimônia do Hugo.

Tudo é organizado por grupos de fãs, sem fins lucrativos, e custeado pelas taxas de inscrição. E geralmente as convenções terminam com uma sobra em caixa, que é repassada para as convenções seguintes.
Você tem que ter garantido um local com capacidade para cerca de 10 mil pessoas. Pra ficar só nas convenções recentes, pós-pandemia, e excluindo a China, que teve muitas particularidades, em Glasgow e Seattle tivemos cerca de 7.300 pessoas cada um. Em Los Angeles, em grande parte por causa do receio de viajantes de fora dos EUA com a imigração, o número foi bem menor, 4.600. E tem que ter hotéis com vagas disponíveis e pré-reservadas pra todo mundo na área do centro de convenções. E transporte público fácil também.

O processo de candidatura demora pelo menos 4-5 anos, e é caro para os organizadores, que pagam do próprio bolso. Mesmo com toda a tecnologia atual, a equipe precisa viajar, fazer contatos em outras convenções como a Europeia (Eurocon) e Britânica (Eastercon, sempre na Páscoa), e fazer campanha. Montar stands com representantes nessas outras convenções, pra explicar como a sua convenção vai ser maravilhosa e como o lugar é ótimo. Promover festas – em Glasgow, por exemplo, os irlandeses da candidatura de Dublin pra 2029 serviram muito whisky… A votação acontece na convenção dois anos antes – os participantes de Los Angeles este ano, por exemplo, escolheram (votando presencialmente ou online) a sede de 2028, Brisbane, Austrália. Nuremberg (Alemanha) e Kigali (Ruanda) desistiram antes da votação final. Até hoje, além de Estados Unidos e Canadá, tivemos convenções no Reino Unido, Irlanda, Finlândia, Alemanha, Holanda, China, Japão e Austrália. A de 2020 na Nova Zelândia acabou se tornando exclusivamente virtual por causa da COVID. Nunca aconteceu na América do Sul e na África.


O ingresso para os cinco dias pra próxima Worldcon em Montreal (preço em dólares canadenses, não americanos, neste link) custa neste momento o equivalente a R$ 1.000,00 a inteira. Vai ter um reajuste em 01/10 e deve ter outro em Janeiro.
O preço final de Los Angeles chegou a R$ 1.400,00 (5 dias); o unitário (sem direito a voto no Hugo) saía a R$435. Tem meia e outras opções, mas esses são os valores principais.
Será que conseguimos encher uma convenção com público local a esses preços? Convenções em lugares distantes precisam ter forte presença local. Em Glasgow havia participantes de toda a Europa. Mas Brisbane com certeza vai precisar ter uma presença forte do público australiano (não acho que vá ser um problema, o fandom é grande lá).

Convidados: por causa do preço das passagens, será que precisaríamos custear a vinda dos convidados especiais? Geralmente são escritores, cientistas, e figuras do fandom local. Mas seria bom ter nomes estrangeiros de peso também. Este ano, a Flifantasy de SP trouxe Robert Jackson Bennett graças às duas editoras dele aqui no Brasil. Os indicados ao Hugo pagam as próprias despesas (seria inviável bancar os indicados de 21 categorias).

Daquela lista de sedes anteriores, com exceção de China e Japão, nos demais países ter a língua inglesa como base não foi problema. Aqui precisaríamos pensar em tradução para os painéis, nem que fosse em IA no telão. E teríamos que ter voluntários fluentes em inglês para auxiliar participantes de fora.

O que leva a outro assunto: todo mundo que trabalha na Worldcon é voluntário. Eu mesmo trabalhei um dia e meio na montagem de stands em Chicago, me oferecendo na hora. Mas precisa ter muita gente comprometida. E você precisa garantir pelo menos transporte e alimentação pra essa gente toda. Vejam a extensa lista de créditos de Los Angeles, e esses são só os chefes de divisão.
Não é proibido ter patrocínio. Mas tem que saber escolher os parceiros com cuidado. Em 2021, em Washington DC, alguém teve a brilhante ideia de fechar um patrocínio com a Raytheon – que produz sistemas de mísseis e radares pro Pentágono. Mary Robinette Kowal era a presidente da convenção e teve que se explicar.


Época: normalmente, a convenção acontece entre fim de Julho e início de Setembro – verão no hemisfério norte, quando muitos lá tiram férias e têm mais disponibilidade para viajar. Mas uma época fria e chuvosa aqui no Rio.
Tem que haver uma estrutura e um cuidado com a acessibilidade pra pessoas com deficiência e mobilidade reduzida. Fiquei impressionado com os cuidados em Chicago, Glasgow e Seattle. E mesmo assim, teve muita reclamação (principalmente em Glasgow com os deslocamentos internos no centro de convenções, mesmo pra quem conseguia um scooter). Los Angeles também publicou um pedido de desculpas por causa de problemas de acessibilidade.

Outro cuidado importante é ter espaços considerados seguros para os participantes LGBTQIA+, além de atenção e providências rápidas em caso de assédio e abusos (como barrar e expulsar rapidamente quem faz o que não deve). A FC é um gênero inclusivo e diverso, e isso é um ponto muito importante. No passado recente isso derrubou as candidaturas de países com leis homofóbicas. Existe inclusive uma discussão na tal reunião de condomínio para adotar critérios para vetar candidaturas de países com regimes anti-democráticos e leis discriminatórias.
Essas são as próximas convenções e candidaturas:
Confirmadas:
2027 – Montréal (Canadá)
2028 – Brisbane (Austrália)
Candidaturas ativas:
2029 – Dublin (Irlanda)
2030 – Edmonton (Canadá)
2031 – Texas (EUA)
2032 – Nantes (França)
2034 – Glasgow (Escócia)

A tendência nos últimos anos tem sido de internacionalização, e por essa lista já se vê que, por enquanto, só tem candidatura americana pra daqui a 5 anos.
Uma Worldcon no Brasil seria ótima. Mas não seria estranho, se nem temos uma convenção regional sul-americana? Não seria melhor estreitar os laços com fãs da nossa vizinhança, antes de dar um passo maior? Isso formaria uma comunidade e daria força a qualquer proposta. Países como Argentina, Chile, Colômbia, Peru e outros têm comunidades e escritores de peso, que tal uma Sudamericon?


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